(Re)imagine
Em um país onde apenas 4% do lixo é reciclado, a RatoRói se firma como uma das empresas pioneiras no reaproveitamento de materiais para os mais diversos fins: desde óculos de sol até revestimentos para construção civil.
Muito se fala sobre sustentabilidade e sua importância, é verdade. No entanto, o rápido declínio da natureza, do clima e da disponibilidade de matéria prima nos últimos anos mostra que a falta de ação para solucionar essas questões ainda deixa a desejar. Felizmente, são projetos como o RatoRói que subvertem essa lógica e mostram que a esperança em uma realidade mais consciente não está perdida.
Completando pouco mais de uma década, a iniciativa foi fundada em 2012 pela designer Flávia Vanelli, que, mais tarde, recebeu a colaboração do historiador e também designer André Guse Barbi. Atualmente, a empresa é composta por três sócios, incluindo o arquiteto e especialista em circularidade Alexandre Gobbo Fernandes e a designer Ana Machado Pradi. “Desenvolvemos produtos e materiais destinados à arquitetura comercial, corporativa e visual merchandising, que oferecem suporte a arquitetos e construtoras na concepção de espaços mais sustentáveis e saudáveis”, conta Flávia.
Uma missão para lá de urgente, no entanto, desafiadora. Segundo dados da Agência Brasil, em 2023, em um país de população superior a 210 milhões de habitantes, cada pessoa produziu, em média, 343 quilos de lixo. Por ano, isso totaliza cerca de oitenta milhões de toneladas de resíduos. No Brasil, somente 4% desse material é reciclado, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
“Nossa motivação inicial surgiu da inquietação em relação às toneladas de resíduos plásticos gerados anualmente”, conta Flávia. “Como agentes de mudança, estabelecemos colaborações sólidas com gestores de resíduos, cooperativas, pequenas recicladoras, indústria de plástico e empresas no geral. Nosso objetivo contínuo é reduzir a quantidade do que é destinado a aterros sanitários e evitar a dispersão no meio ambiente, especialmente em rios e oceanos.”
Como é possível que a solução seja de fato viabilizada? Flávia explica: “Construímos parcerias e buscamos soluções completas, abrangendo desde o manuseio inicial dos resíduos plásticos até o desenvolvimento do produto final”, diz. Ela cita o exemplo dos óculos de sol feitos em colaboração com a Sagui, construídos a partir de embalagens reaproveitadas de creme dental e alimentos (na foto).
Até o ano passado, Flávia Vanelli conta que a abordagem era predominantemente laboratorial, ou seja, focada na criação de materiais e produtos sustentáveis e inovadores sob demanda, promovendo cadeias de revalorização de matérias que, de outra forma, seriam descartadas em aterros. No entanto, para 2024, a designer vislumbra uma expansão com escala piloto, contemplando uma matriz mais ampla e equipamentos adicionais, sempre preservando a essência criativa da empresa, porém ampliando sua capacidade de inovação. Para isso, a sede da RatoRói, atualmente no Centro de Inovação Novale Hub, em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, irá se mudar para um novo edifício integrado ao complexo de inovação da cidade, com uma orientação mais industrial.
A empresa, que também já trabalhou com marcas como Havaianas, C&A e Bradesco, tem como meta expandir o seu alcance, atingindo maior número de cooperativas e recicladoras parceiras, e promover o crescimento interno de novos talentos. “Com esses objetivos conquistados, pretendemos não apenas consolidar a posição da Rato enquanto pioneira de uma agenda circular, mas também inspirar outras pessoas e empresas a seguir um caminho semelhante em direção a um futuro mais abundante, alegre, justo e regenerativo.”