Joycelyn Longdon se destaca no âmbito do ativismo climático com um pioneirismo na intersecção entre tecnologia e conservação ambiental. Seu projeto de doutorado em Inteligência Artificial para Risco Ambiental, na Universidade de Cambridge, explora a sinergia de machine learning, bioacústica e conhecimento indígena, revolucionando a conservação de florestas. Além da pesquisa acadêmica, ela é a visionária por trás do Climate in Colour, plataforma criativa que desmistifica o discurso climático, tornando-o acessível e envolvente para uma comunidade diversa. Seu trabalho confronta as raízes coloniais da conservação, amplifica vozes marginalizadas e lidera soluções baseadas em justiça. Unindo sabedoria ancestral com tecnologia de ponta, a visão de Joycelyn abre caminho para um futuro mais equitativo e sustentável. Seus esforços, um testemunho de inovação e inclusividade, preenchem a lacuna entre ciência e sociedade, oferecendo uma perspectiva nova e esperançosa para enfrentar a crise climática.
Você pode falar brevemente sobre seus estudos de doutorado e o projeto que você está desenvolvendo em Gana?
Estou trabalhando em algo chamado justiça de dados em conservação, um campo novo que responde à enorme aceleração da tecnologia no espaço ambiental e, especificamente, na conservação. Agora, mais do que nunca, com o avanço da IA, tecnologias estão sendo implantadas em biomas para monitorar e rastrear a biodiversidade, para acompanhar desigualdades florestais, para informar sobre políticas de conservação e implementação. Embora a tecnologia forneça uma enorme quantidade de recursos e acesso a dados que nunca tivemos antes, ela também vem com riscos reais para a privacidade e a agência das comunidades que vivem nas áreas de conservação. Portanto, meu trabalho procura formar um estudo de caso em torno da bioacústica, tecnologia que usa gravações de som para monitorar e rastrear a biodiversidade. Estou olhando como ela pode ser construída com e pelas comunidades que vivem nas florestas, e ser apropriada não apenas para uso em conservação, mas também para o empoderamento local. O projeto está em andamento em Gana, e estou ansiosa para ver como ele se desenvolve.
Como o conhecimento ancestral e as vozes dos povos indígenas podem ser mais valorizados na conservação e pesquisa?
Há cada vez mais projetos que não apenas reconhecem, mas colocam o conhecimento ancestral, local e tradicional no centro dos esforços de conservação,porque sabemos que, em muitos casos, o conhecimento mantido pelos povos indígenas e florestais é essencial para proporcionar melhores resultados de biodiversidade e também melhor armazenamento de carbono. Trata-se de aliar o melhor da conservação moderna, que tem um enorme valor, ao que é oferecido pelas comunidades. Penso que isso significa garantir a centralidade do conhecimento indígena desde o início, envolvendo-o em todas as etapas dos projetos de conservação, ao invés de considerá-lo um pensamento posterior ou um complemento. É não romantizar e não tokenizar o papel do conhecimento indígena mas ver essas comunidades como parceiras iguais.
O que é justiça climática e como os conceitos de reparação climática e racismo ambiental estão relacionados a isso?
Justiça climática é um movimento que tem uma longa história enraizada na história indígena e negra, bem como das comunidades na Índia e Austrália, reconhecendo que os mais vulneráveis são os menos responsáveis pela crise climática e mais afetados. E a maneira como isso se relaciona ao racismo ambiental, que está na raiz de grande parte da crise climática. Vemos um grande impacto negativo emanando desde a era colonial e se intensificando através dos sistemas capitalistas de extração, e quem enfrenta o peso desses sistemas são pessoas negras, indígenas e pardas ao redor do mundo. As ilhas do Pacífico, países do leste africano e Paquistão são regiões que enfrentam consequências drásticas, com ameaças de inundações e secas. E também comunidades negras nos Estados Unidos e na Europa, que, mesmo vivendo no Norte global ainda estão expostas a um aumento da destruição ambiental, com ar e ambientes tóxicos. Reparações ambientais e climáticas buscam receber compensação não apenas pelos sistemas de opressão que são infligidos nas comunidades, mas também pelos impactos climáticos reais experimentados por essas pessoas como resultado desses sistemas. A justiça climática, portanto, é um movimento que trabalha para amplificar, destacar e fornecer resoluções para os que são mais prejudicados pela crise climática, de maneiras que se interligam com sistemas de opressão.
O que te motivou a criar a plataforma Climate in Colour?
Trabalhei no ambiente criativo antes de começar o Climate in Colour e o meu doutorado. Queria comunicar o conhecimento ao qual eu tinha acesso de uma maneira que fosse acessível, especialmente como cientista. A ciência pode ser inacessível para uma ampla gama de pessoas, ainda mais a climática, que é muito fechada e elitista. Eu queria criar espaço para conversas, para falar sobre justiça climática e falar sobre ciência climática de uma maneira que fosse divertida e convidativa – e também esperançosa.
O que te inspira?
Sou inspirada por qualquer pessoa que acorda e tem algum tipo de esperança ativa no trabalho que está fazendo. Também me inspiro na nossa capacidade de mudar os sistemas nos quais estamos presos e nos mover para mundos que são mais regenerativos, seguros e saudáveis; olhar para um futuro abundante, não um que vê impacto climático positivo vindo puramente de sacrifício. Claro, temos que sacrificar algumas coisas, mas precisamos sair dessa mentalidade de falta para uma de abundância, na qual as pessoas têm dignidade para viver, alta qualidade de vida, e são capazes de construir uma conexão profunda e genuína com o mundo vivo e todas as coisas.
Como podemos ser a mudança que queremos ver no mundo?
Agindo das maneiras que são mais acessíveis para você e se afastando da retórica ou da suposição de que é preciso ser um certo tipo de pessoa ou ter um certo tipo de habilidade para tomar atitudes. É bastante cansativo ouvir as pessoas dizerem, “Oh, eu não sei o que fazer ou não tenho certeza qual é o meu papel“. Acho que todos nós somos seres criativos e temos os recursos ao nosso redor para começar. Desejo que as pessoas pensem mais criativamente sobre a ação climática e transponham os limites rígidos que a ação climática parece ter, porque temos que ir além dessa ideia de ser um ativista climático e pensar sobre quem somos enquanto seres humanos. Como indivíduos e em comunidade, precisamos nos envolver com o mundo vivo ao nosso redor. E isso vai além do ativismo, é uma jornada espiritual mais profunda. É se afastar do ego que está cercado ou embutido no ativismo climático e realmente focar no que mais importa, seja isso na comunidade local ou na global.