Por meio de vídeo, instalação e performance, a artista mineira-capixaba radicada na Inglaterra Rubiane Maia usa seu trabalho como um dispositivo de ação ao questionar a potência do corpo e da vida. Para ela, ser artista significa, acima de tudo, correr riscos, desconstruir e subverter.
Qual foi seu primeiro contato com arte?
Durante a universidade. Cursei Educação Artística (Artes Visuais) e fiz licenciatura, pois queria dar aula. Já nesta época, comecei a trabalhar ensinando arte no ensino fundamental e médio para crianças, jovens e adultos. A maior parte na periferia, em escolas públicas de Vitória (ES). Minha produção artística começou paralela a esse trabalho com a educação, até que precisei fazer uma escolha pela impossibilidade de conciliar as duas jornadas.
Onde você busca inspiração?
Minha primeira fonte de inspiração foi a literatura. A poesia responde muito bem aos meus questionamentos e a ições. Tenho buscado ler obras de mulheres poetas, textos e livros que apresentam conceitos e perspectivas feministas, étnicas e raciais. Mas prefiro substituir a palavra inspiração por resiliência, porque é mais simples citar questões que me impulsionam a produzir diante de tantos desafios.
Qual seu trabalho favorito? Por quê?
Não tenho um trabalho meu que prefira, mas em alguns gostaria de ir mais fundo. O Jardim foi uma performance em que trabalhei por dois meses criando uma plantação de feijões. Não repetiria a ação, mas gostaria de retomar o contato com plantas. Na época, construí um caderno de coreografias com desenhos de observação do crescimento dos ramos com a ideia de transformar num outro trabalho de ação-gesto-dança. Também comecei a estudar processos de comunicação telepática com árvores – a memória dos vegetais e das pedras me interessa muito.
Transitar por diferentes meios é importante para você se expressar artisticamente?
Minha produção começou com a performance e só depois expandiu para outros meios. Não acho que esteja fazendo nada de novo em termos de linguagem de cinema e vídeo, mas me interessa produzir imagens. Se expressar artisticamente não é uma questão de técnica, é um modo de se entender no mundo.
Quando a obra de arte tem um significado especial para você?
Uma obra pode ter diferentes significados dependendo do contexto. Para mim, uma obra é especial quando é honesta, quando nasce da real necessidade de comunicar algo ao outro. A arte é importante não só para construir coisas, mas também para destruir o que está estabelecido.
Como é seu processo criativo?
Em 2015 e 2016, optei pelo nomadismo e me dividi entre residências artísticas e casas de amigos. Essas imersões foram riquíssimas, tanto para encontrar espaço/tempo para a criação, quanto pela aproximação de outras artistas. Acabei me adaptando a essa dinâmica de viver e trabalhar mudando de contexto e produzindo com limitações. Agora, estou iniciando uma nova fase em outro país, dividindo um estúdio com meu marido, sendo mãe de um bebê e assistindo perplexa à ascensão do fascismo no Brasil. A vida virou de ponta cabeça, ainda não sei o que chamar de processo criativo. Tem sido um momento de transformação profunda.
Qual a importância de colaborar com outros artistas?
A colaboração é essencial para uma vida menos individualizada e egocêntrica. É fundamental para sair da zona de conforto. Nos últimos anos, com amigxs, criar junto me ajudou a encontrar perspectivas e soluções muito diferentes.
A arte é onipresente?
Sim, porque ela é capaz de criar um campo de força em torno de si. O mais importante é ativá-lo para que essa energia possa se manter viva, acessível, e consequentemente se espalhar.
Você acredita que a arte pode ser uma forma de resistência?
Claro que sim! Ser mulher e artista no Brasil é difícil. Para completar, temos uma população negra sendo criminalizada e massacrada. E a equação ‘mulher-artista-negra’ é uma questão política que precisa constantemente ser colocada em evidência, pois precisamos triplicar a luta para não sermos invisíveis. Sempre somos uma parcela mínima em mostras importantes - salvo em projetos destinados às minorias. Para se afirmar como uma mulher-artista-negra, é preciso cuidar da vulnerabilidade, confiança e auto-estima perante tantos modos de exclusão, incluindo a falta de oportunidade e recursos. Nossos corpos já nascem com cicatrizes de luta e resistência.
O que você sente quando está performando?
São múltiplas sensações e sentimentos, não é simplesmente conforto e satisfação. É uma entrega, um estado de atenção diferente, intenso e sensível. Certamente, cada trabalho possui suas particularidades, mas em geral, eu me sinto mais viva. Performar, para mim, é terapêutico.