‘Gentes comuns’ e o tempo das abóboras
São 3h40 da manhã, e um rompante de ideias invade o espaço do sono. Em meio a um sonho, um despertar. Num levantar da cama para buscar um papel e uma caneta vão surgindo textos, ideias, projetos.
Numa visão científica, o sonho é um preparo para situações de risco e reflete medos, anseios e dificuldades. Explicações que poderiam ajuizar com clareza as criações realizadas nos últimos dez anos por mim.
Como se dá o processo de criação do artista? De onde surgem as ideias, pensamentos e obras? Reviso a minha produção diante de uma notícia prazerosa: a indicação para o Prêmio Arte e Política Vera List Center-Jane Lombard Award de Arte e Justiça Social, concedido pela The New School (EUA). A indicação feita pela artista brasileira Maria Tereza Alves gerou a necessidade de revisitar toda a minha trajetória, teorizar a produção em arte ativista e perceber como a minha obra quase anônima foi vista do ’outro lado do mundo‘.
Se penso nos textos teatrais, instalações, intervenções, montagens fotográficas e vídeos, recorro a Felshin (1995) para explicar o senso da resistência, a partir dos impulsos estéticos, sócio-políticos e tecnológicos na luta simbólica com fins reais de representação social. É em Ramos (2009) que me encontro como ’gentes comuns‘. Conectando o universo dos sonhos à luz das teorias, poderia dizer que, o dia a dia de gente comum ativa muito do que se chama resistência através da arte. Não fosse gente comum, com mazelas do dia a dia, as noites sonhadas não revisitariam o dia durante o sonho. Mas o que sonho?
Dentre as preocupações que povoam meus sonhos, estão as relacionadas aos povos originários, de onde fecundou minha existência, herdeira do sangue negro e indígena que em suas matrizes carregam a ampla visão de mundo, com sociedades estratificadas em mundos materiais e imateriais - sonhos e mirações. A justiça e paz social necessária para o bem viver das comunidades indígenas brasileiras, como foco de um pensamento artístico e crítico, busca alcançar olhares de outras gentes comuns, que pouco poderiam acessar a realidade desses povos. A arte alcança.
Recebo por e-mail a notícia que estive entre os quatro finalistas para a edição de 2018-2020 do prêmio, tendo como vencedor o coletivo pan-africano Chimurenga, que reivindicou com ousadia e sem remorso o imaginário africano. Nas palavras dos curadores, chama a atenção o trecho em que se dizem impressionados com o conteúdo das produções e ainda mais, com a representatividade de quem foi relator das ações. Explico: alguém realiza um relato sobre elas a fim de embasar o julgamento. Confesso que não li a defesa, pois minha gente comum não está apta a se ver através do espelho. Porque compreende que não se pode sair do lugar de gente comum, ainda que a atuação cruze os marcos geográficos, se virtualize e chegue às mãos de pessoas gabaritadas. Principalmente porque muitas outras ’gentes comuns’ se conectam diariamente a essas ações - uma produção cultural oriunda de excluídos, porque se faz necessário e urgente pensar nas margens, exercitando identidades sociais alternativas para enfrentar o mundo como se apresenta (Mignolo, 2000). Mas do que você está falando, especificamente?
Agora são 6h32 da manhã. Uma xícara de café. Pão de queijo no forno. Dinheiro para o lanche das crianças. Texto nalizado. Vou olhar as abóboras. Estou preocupada se haverá fecundação para que os frutos nasçam no tempo certo.