Cozinheira de mão cheia e ativista ambiental, Natalia Luglio cresceu rodeada de mulheres que amavam os animais. A influência, mesmo que despretensiosa, desabrochou para uma vontade maior sobre as possibilidades do vegetarianismo, e, depois, do veganismo. Formou-se em 2015 no Natural Gourmet Institute de Nova York – focado em ensinar uma gastronomia à base de plantas voltada para a saúde humana –, onde teve a oportunidade de trabalhar em restaurantes estrelados e conhecer chefs inspiradores. De volta ao Brasil, Natalia se divide entre a capital de São Paulo e a roça, onde planta os próprios alimentos e cozinha pratos coloridos (e saborosos), focando em ingredientes brasileiros e no não desperdício de recursos no preparo.
Como você definiria a gastronomia regenerativa?
Ela é aquela que de alguma forma regenera o ambiente e a sociedade, seja através de alimentos da biodiversidade brasileira, que mantém nossas florestas em pé, seja comprando direto de pequenos agricultores (de preferência orgânicos) que zelam pelas suas terras sem prejudicar o ambiente. Na cozinha, é importante evitar ao máximo o desperdício, e você pode fazer isso optando por ingredientes menos bonitos que seriam injustamente descartados, mesmo estando perfeitos para uso. Ou também usando o alimento de forma integral com casca, sementes, talos e folhas.
Quando você decidiu conhecer mais sobre o vegetarianismo/veganismo? Foi um processo linear, gradativo, teve altos e baixos?
O veganismo chegou para mim por meio da [iniciativa] segunda sem carne. Quando comecei a participar, logo vi que a vida sem carne era cheia de cores e sabores, e que, enquanto cozinheira, não perderia nada por deixar ingredientes animais de lado. Para mim, foi uma decisão fácil, quando vi que seria melhor para a minha saúde e para o planeta, deixou de fazer sentido. Nunca tive recaídas. O amor pelos animais veio depois e hoje é o maior motivo que me faz ter certeza de que jamais voltaria a comê-los. Criei uma conexão forte com eles e já não os vejo mais como comida. Ano retrasado adotei um bezerro, o Bentinho, e todos os dias ao abraçá-lo, reforço meus valores pelos animais.
Na sua visão, quais são as barreiras para uma educação alimentar eficaz no Brasil?
Temos um lobby forte do setor agropecuário e das indústrias de alimento ultraprocessados, com grande força política, que bajula e realiza eventos para profissionais da saúde e que paga influenciadores e celebridades de todas as faixas etárias para promover alimentos com malefícios à saúde comprovados. Fora isso, a alimentação, sendo uma questão fundamental para nossa vida, deveria ser ensinada já na escola, para formar adultos com maior consciência alimentar. Isso sem dúvida geraria grande economia para a Saúde Pública no Brasil. Alimentação saudável é simples, sem luxo e, muitas vezes, mais barata do que se pensa. Mas hoje temos uma ideia totalmente deformada do que é saudável, achamos que precisamos de ingredientes mirabolantes que custam caríssimo e não são acessíveis para a maior parte da população. É preciso lembrar as pessoas de comer comida de verdade.
E o acesso a alimentação orgânica?
A alimentação orgânica ainda é elitizada, pois a oferta é menor que a demanda, tornando os produtos mais caros. Acredito que isso seja questão de tempo, já que os insumos para produzir de forma orgânica estão cada vez mais diversos, tecnológicos e acessíveis. O que facilita a conversão dos agricultores, muitas vezes presos no uso de venenos convencionais por falta de instrução e acesso às novas tecnologias.
O que as redes sociais trouxeram para a sua vida?
Elas me abriram muitas portas, me fizeram conhecer pessoas e empresas incríveis com quem pude trabalhar. Neste momento, tenho estado menos ativa, pois meu trabalho no campo toma muito do meu tempo. Com as coisas mais encaminhadas por aqui, quero compartilhar sobre a vida de uma menina da cidade na roça e todos os desafios para converter uma lavoura convencional para orgânica.
Como a relação com a sua mãe te inspira no ativismo ambiental?
Minha mãe e avó sempre foram ambientalistas e protetoras dos animais. Cresci dividindo o sofá com uma ovelha, dezenas de cachorros e gatos (risos). A vida toda elas cuidaram de animais resgatados, e muitas vezes as vi brigando com quem os fazia mal. Crescer em um ambiente assim com certeza me tornou a pessoa que sou hoje. Por outro lado, eu também estou trazendo novidades, pontos de vista e ideais. Fui a primeira vegana em casa e logo convenci minha mãe de que era o melhor caminho para nós, para os animais e o planeta. Ela não só se tornou vegana, como se tornou uma das maiores ativistas da causa no Brasil e dedica sua vida a isso.
A criatividade e a culinária estão conectadas?
Eu considero a culinária uma arte que requer criatividade. Ninguém aguenta comer todos os dias as mesmas coisas, então temos que ser inventivos para fazer os mesmos ingredientes terem caras e sabores diferentes. Gosto de ousar na cozinha, uso cores, PANCs (plantas alimentícias não convencionais), alimentos de forma integral e uma grande variedade de ervas e especiarias.
Você também cultiva muitos dos alimentos que consome. O que essa possibilidade mudou na sua rotina?
Cultivar seu próprio alimento faz você dar outro valor para o que coloca no prato – e recomendo para todo mundo. Não é fácil, mas é extremamente gratificante. Acho que o que mais mudou na minha vida foi ter consciência do tempo das coisas e do trabalho para produzir o mais simples pé de alface. Fazer horta em casa também é uma delícia, porém temos que ser realistas: hortaliças precisam de sol direto, e isso é inviável para quem vive em apartamento, o que pode ser frustrante. Recomendo plantar manjericão, que não precisa de tanto sol, rúcula e rabanete, que são super fáceis de cuidar e podem ser colhidos em 20/30 dias.
Qual ação sustentável você ainda não conseguiu incorporar, mas tem como meta?
Gostaria de diminuir ainda mais o uso de plástico, comer cada vez menos industrializados para conseguir reduzir o número de embalagens. Por menor que seja meu consumo hoje, acho que sempre existe espaço para melhorar.