Fernanda Simon é diretora executiva do Instituto Fashion Revolution Brasil e faz parte do conselho diretor do Fashion Revolution Global, foi pioneira como editora de sustentabilidade na Vogue Brasil, já palestrou na ONU e na COP. Ela coleciona muitos feitos importantes no currículo e é uma ativista incansável que vê a moda como uma poderosa ferramenta de transformação. O diferencial de sua atuação mora na abordagem ecofeminista – na qual coloca a moda alinhada com clima, natureza e mulheres –, que perpassa todos os projetos, artigos, eventos e cursos que faz. É dela também a organização do livro Revolução da Moda: Jornadas para a Sustentabilidade, ao lado de Eloisa Artuso, uma publicação com ensaios escritos por mulheres para inspirar a mudança na indústria, de maneira ética e justa com todos os envolvidos ao longo do processo.
Como a indústria da moda está conectada ao desmatamento na Amazônia?
Não só o da Amazônia como o desmatamento do Cerrado também. Somos os maiores produtores de algodão e ele é produzido em áreas desmatadas, áreas que, em algum momento, tinham uma vegetação nativa, biodiversa. E elas são destruídas para uma plantação de monocultura, de semente transgênica e com processo cheio de agrotóxico. O maior motivo do desmatamento na Amazônia especificamente é a criação de gado, que não produz apenas carne, mas também couro. Inclusive, existe uma pesquisa do Stand Earth que mostra mais de cem marcas globais que estão diretamente conectadas à compra do couro de áreas desmatadas ilegalmente naquela região. Nós podemos falar sobre a mineração e o impacto que causa, afinal existem joalherias que também compram ouro de garimpo ilegal. São três pontos que estão conectados ao desmatamento na Amazônia: a joalheria, o couro e o algodão.
Como a moda pode se tornar mais sustentável ao escolher suas matérias-primas?
É um passo fundamental, mas não é só sobre isso. A indústria precisa rever o seu modelo produtivo. Não adianta trocar a matéria-prima e continuar produzindo na mesma velocidade, e descartar na mesma velocidade. Não adianta olhar só para a matéria-prima se a gente não olhar para o sistema de moda e toda a sua complexidade. Essa sempre foi uma pergunta importante para o movimento, porque não adianta termos uma produção de matéria prima que seja mais ecológica se essa roupa é produzida de forma injusta com os trabalhadores ou dentro de um sistema de produção extremamente acelerado. A matéria-prima mais utilizada é o poliéster, proveniente do petróleo, então estamos falando de descarbonizar o setor, estamos falando de olhar para o combustível fóssil. Obviamente, o petróleo pode ser usado de forma inteligente, o plástico também. A moda precisa buscar um formato mais circular e regenerativo, ter esse olhar para uma produção de algodão orgânico agroecológico, mas sempre lembrando que o modelo como um todo precisa ser revisto.
Pode nos contar um pouco sobre como você começou a se interessar e a incentivar o uso do cânhamo na indústria da moda? Quais foram os principais motivadores e desafios ao longo desse processo?
Uma das primeiras marcas que eu conheci que tinha uma pegada mais sustentável era uma que já trabalhava com cânhamo, e eu sempre estudei e tive uma proximidade com a planta da cannabis em outras frentes da minha vida, então a planta estava no meu radar. Estudando moda e sustentabilidade, via a presença do cânhamo ali, como uma fibra ancestral e que traz inúmeras características que beneficiam o meio ambiente. Em determinado momento, conversamos [em equipe dentro do Fashion Revolution] sobre essa matéria-prima e o quanto ela precisava ser fomentada. Começamos trazendo parcerias com mais força para gerar discussão e mostrar os benefícios ambientais e econômicos para o nosso país. E isso não está sendo discutido por ignorância, falta de conhecimento e preconceito com a planta.
Como podemos incentivar práticas mais responsáveis, visando à regeneração?
Tudo começa na visão sistêmica do setor: entender como as coisas são feitas, como são pensadas, como são descartadas, olhar processo por processo, olhar para aspectos culturais, regionais, entender o local, cada preciosidade que existe em uma região, quais são as suas técnicas, características, como podemos envolver comunidade locais, organizações, movimentos. Um olhar social e cultural. Tem também a questão da ancestralidade, do resgate de como fazer; a preocupação com as pessoas em primeiro lugar. É pensar global e agir local – acho que isso também é muito importante quando falamos de sustentabilidade.
Qual ação sustentável você ainda não conseguiu incorporar na sua vida, mas tem como meta?
É impossível viver uma vida sustentável quando estamos dentro de um sistema capitalista, porque o capitalismo nunca vai permitir que a sustentabilidade de fato aconteça, então são inúmeras. Por mais que eu tenha uma alimentação vegana, compre localmente, tenha uma composteira, busque usar transportes coletivos, isso tudo ainda é muito pouco quando pensamos em um modelo de vida que seja realmente sustentável. Se um dia, talvez, eu conseguir morar dentro de uma comunidade, no interior… Mas existe outra coisa que é essa imagem utópica, considerando o formato de sociedade em que a gente vive. Ações individuais são importantíssimas, mas elas não são suficientes. Nós precisamos atuar para mudanças coletivas, e isso envolve engajamento político, participação em organizações da sociedade civil, em campanhas, ativismos.
O que te inspira?
Deus, o mundo espiritual, a natureza, comunidades que conseguem viver de uma forma mais harmônica com o meio ambiente e com uns e outros, arte. A inspiração vem disso: do divino da natureza e da arte.