Clare Press é editora de sustentabilidade da Vogue Austrália. Ela também apresenta o podcast Wardrobe Crisis (Crise no Guarda-Roupa), em que entrevista estilistas, change-makers, acadêmicos e criativos sobre ética, sustentabilidade, negócios da moda e políticas de estilo.
Quando sua história com a moda sustentável começou?
Sou jornalista de moda há vinte anos, hoje totalmente focada na moda sustentável. Em 2018, fui nomeada a primeira editora de sustentabilidade da Vogue Austrália. Para mim, o catalisador foi o episódio do Rana Plaza (Em 24 de abril de 2013, a fábrica de roupas Rana Plaza, em Bangladesh, desabou, matando 1.138 pessoas, ferindo cerca de 2.500 e deixando 800 crianças órfãs). Percebi que havia algo errado com o sistema. Perguntei a mim mesma: o que eu, como profissional de moda, posso fazer? Foi então que decidi usar minha plataforma para levantar questões sobre como a moda pode melhorar o planeta e a vida das pessoas.
Por que há uma crise em nossos guarda-roupas?
O título do meu podcast e do meu livro, Crise no Guarda-Roupa, fala da crise coletiva do vestuário. Em quinze anos, a produção mundial de roupas duplicou. Perdemos a conexão com a forma como nossas roupas são feitas e, com isso, passamos a desperdiçar cada vez mais. O consumismo enlouqueceu. Fomos treinados para comprar coisas das quais não precisamos – que, em alguns casos, nem queremos, depois jogá-las fora e comprar mais. Chamamos isso de “terapia do varejo” – mas eu diria que isso não nos faz felizes.
Como a moda pode se tornar uma indústria sustentável e circular?
Precisamos melhorar a reciclagem. Em 2017, menos de um por cento das roupas usadas foi reciclado, ou seja: triturado e transformado em novas fibras para fazer roupas. Também precisamos aprender a manter nossas roupas em uso por mais tempo, por meio de brechós online, de upcycling e de reformas. E temos que desenvolver e acelerar novas maneiras de acessar a moda que desencorajem o descarte, como o aluguel de peças. A boa notícia é que tudo isso já está acontecendo. Estamos chegando lá!
Como consumidores, o que podemos fazer para ajudar?
Se escolhermos não comprar roupas e produtos insustentáveis, as empresas não conseguirão vendê-los. A frase “vote com sua carteira” vem a calhar. Pesquise e valorize marcas que trabalham de forma ética, que tenham algo a dar em troca, que tentem reduzir seu impacto ambiental usando materiais sustentáveis. Compre local. Compre de segunda mão. Alugue roupas, reforme-as, troque-as – aprenda a gostar delas outra vez!
Você acredita que a moda ética será norma no futuro?
Acho que transparência é o foco da revolução da moda. Para as marcas, os processos de certificação podem ser um ótimo ponto de partida. Usar um algodão que esteja dentro do Padrão Global de Têxteis Orgânicos (GOTS), por exemplo, ou buscar parceiros que trabalhem na base do comércio justo.
Como podemos mudar o mundo?
Precisamos nos unir! Una-se a movimentos, grupos comunitários, redes. E comece a fazer algo por conta própria – organize bazares de troca, mutirões para plantar árvores, workshops de desperdício zero. A mudança é possível – ela já acontece todos os dias.