Telas sobre telas
Fazia dias que eu não comparecia aos eventos sociais. Eu permanecia em casa com aquela velha calça desbotada que completava o seu aniversário de 14 anos em meu guarda-roupa e que combinava com o resto de café grudado no fundo da terceira xícara sobre a mesa.
Enquanto administrava as 23 abas separadas em três janelas distintas no desktop do computador – distribuído em dois monitores – lembrei de buscar o novo projeto do artista brasileiro Nuno Ramos¹ feito para a web. Havia visto sua divulgação no dia anterior em uma das minhas redes sociais.
Digitei o código www.aarea.co e deixei a navegação correr por conta. Não, o trabalho não estava funcionando. Ele só seria iniciado no momento em que o Jornal Nacional² fosse ao ar. Faltavam minutos. Ao invés de marcar pelo relógio, melhor seria marcar pelo televisor. Ele ligado, o computador ligado, o celular a piscar intermitentemente as mensagens que chegavam, diante de uma sala e cozinha também acesas. A energia a postos, todos em modo on. Telas sobre telas.
A campainha tocou, levantei-me com a plena convicção de que ela havia chegado.
– Por que essa cara? – E eu respondi já me virando de costas. – Corre! Vem ver! Ela juntou-se a mim, e quando voltei-me para as telas, lá estava. Em cortes e saltos, falas robóticas a refazer os versos da canção Lígia³, de Tom Jobim. Sílaba por sílaba desfiada na prolongação dos tempos. Ao som da máquina em atraso, uma música cheia de rasgos.
Eu ansiosamente no aguardo do refrão, mal poderia prever que ele seria a palavra mais atravancada. Mal poderia prever que aquilo que acreditei ser um erro da minha conexão com a internet, na verdade eram as falhas garantidas originalmente pelo vídeo.
A obra ficou apenas alguns dias disponível, depois perdeu-se na efemeridade dos canais virtuais. Apesar dos versos subtraídos que Me metem mais medo que um raio de sol, Lígia tornou-se figura assombrosa. O fantasma do noticiário, o duplo da canção.
O clima era de melancolia.
¹Nuno Ramos recriou através da edição de vídeo e áudio a canção ³Lígia – composta nos tempos da ditadura militar brasileira. Nesta obra produzida especialmente para a Aarea (plataforma virtual de trabalhos de arte para internet), o artista usou as edições do dia 16 de março e 31 de agosto de 2016 do ²Jornal Nacional, quando foram divulgadas as conversas entre os ex-presidentes Dilma Roussef e Lula, e também na aprovação do impeachment da presidenta. Através de um trabalho de montagem, os apresentadores cantam os versos do compositor Tom Jobim. O vídeo era exibido apenas durante o noticiário, sendo interrompido nos momentos do comercial ou fora do horário do programa. A obra cou disponível aproximadamente vinte dias.