Elas são o presente
Seis marcas brasileiras mostram os caminhos possíveis para a criação e a produção de peças que consideram a sustentabilidade (em sua essência) durante todo o processo, da linha na agulha ao cliente final.
Mateos Quadros
O estilista criou a marca que leva seu nome em 2020. Já desfilou na Casa de Criadores e vestiu nomes como Isabeli Fontana, Urias e Jordanna Maia com peças curiosas e artísticas feitas a partir da impressão 3D. Nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Mateos Quadros é formado pela Universidade Feevale, de Novo Hamburgo, sempre teve uma queda pelas experimentações que a moda poderia oferecer. A tecnologia, outro forte alicerce de seu processo criativo, trouxe uma nova camada de entendimento para as intuições que ele já tinha. Essa percepção de sentidos (e sentimentos) aparece nítida nos corsets, feitos a partir dos estudos sobre cimática – padrões físicos produzidos por interações de ondas sonoras –, tema do seu TCC na graduação. Longe do imaginário sufocante e controlador relacionado aos espartilhos, as peças de Mateos são vazadas e maleáveis, o que permite a movimentação do corpo sem marcar ou machucar quem veste.
WTNB
Formada em Design de Moda pela FAAP, Clara Watanabe é um desses nomes para sempre ficar de olho. Artista visual e designer, ela tem forte influência da alfaiataria tradicional, do bordado, do crochê e da tapeçaria feita à mão. Não à toa, já colaborou com grandes marcas do mercado nacional, como Animale, Asics, DOD e Insider Store, e foi destaque em exposições no Museu de Arte Brasileira e Instituto Tomie Ohtake. O prêmio do seu TCC, que ficou em primeiro lugar em 2019, foi uma bolsa de estudos para a prestigiada Central Saint Martins, em Londres, onde pôde aprofundar-se na criação a partir do conceito de upcycling. De volta ao Brasil, ela criou a sua WTNB, focada em desconstrução e recuperação de peças garimpadas ou doadas para transformá-las em itens-desejo de qualquer um que goste de ter algo único no guarda-roupa. Tudo isso com o seu olhar para novos jeitos de criar roupas de maneira autoral e responsável. As peças que ilustram estas páginas, por exemplo, fazem parte do primeiro, e mais recente, drop da marca, desenvolvido com tecidos da TRAMARE, empresa de tecelagem no interior paulista que produz tecidos para decoração: “Eles abriram as portas do depósito para conseguir garimpar materiais”, explica a estilista. Vale dizer que a WTNB não utiliza plástico de nenhuma forma e os produtos são embalados com retalhos de tecidos. Outra vertente explorada pela fundadora é o desenvolvimento de objetos decorativos, fabricados em placas de plástico 100% reciclado – no lugar de parafusos ou outros materiais poluentes, ela Images usa uma técnica de encaixe inspirada nos origamis.
Nalimo
Dayana Molina lançou sua marca em 2017. O nome já nasceu ativista e comprometido com o meio ambiente e a representatividade indígena na moda nacional. Feita por uma equipe exclusivamente feminina, a NALIMO usa o design das peças para enaltecer códigos ancestrais de forma única, escolhendo matéria-prima biodegradável e orgânica. “Eu queria que a marca fosse referência de design ético, além de inspirar novas referências originalmente conectadas com as minhas raízes indígenas”, conta a estilista. Nascida em Niterói, filha de pais indígenas de origens do nordeste do país e de outros países da América Latina, ela vive hoje em São Paulo, onde mantém um ateliê ativo, inclusive para peças sob medida, como as usadas por Zaya e Samela Sateré Mawé em ocasiões especiais e eventos. “O meu processo criativo vai muito além da concepção da roupa: envolve pensamento crítico e prática decolonial. Ao criar de forma transparente, colaborativa e humanizada, nosso impacto social e ambiental tem profunda conexão com a cosmologia indígena. Vivemos e produzimos em outro tempo, um menos acelerado e mais consciente sobre presente e futuro”, explica Dayana. A estilista reforça que não cumpre as agendas tradicionais da moda para tornar as roupas mais perenes, “tendo em si um ciclo longo com apelo de reutilização”. Além do vestuário e dos acessórios, ela também encabeça dois projetos que trazem propostas importantes para mudanças estruturais, o Aldeia Criativa Design do Futuro e a #descolonizeamoda. Em 2018, mapeou criativos na moda com o primeiro casting de modelos indígenas no Brasil, tudo de forma independente. “Ao conectar as minhas referências ancestrais de origem indígena trouxe reflexões inovadoras com as quais a indústria não sabia lidar. Precisei ser muito resignada em transformar esse cenário, inclusive educando, no intuito de mostrar que era possível fazer moda e inserir elementos de minha cultura na identidade do meu trabalho enquanto criativa. Os desafios eram muitos. Não havia ninguém fazendo o que eu fazia.”
Negropiche
Formado em gastronomia, Iury Aldenhoff decidiu fazer, em 2017, uma camisa a partir de retalhos de tecidos. Impressionados com o resultado da peça, os amigos próximos perguntavam de onde era, queriam saber se poderiam comprar, quanto custava. “Junto com o meu namorado, decidi fazer algumas peças e colocar à venda no hall de um teatro aqui de Fortaleza”, conta ele, que hoje é um dos nomes proeminentes na moda local e nacional. A sua marca, que veio ao mundo seis meses depois, se finca em pilares de empoderamento e fortalecimento da economia negra. Estampas e cores que remetem a símbolos do Ceará e modelagem ampla para garantir o frescor que a região pede estão entre os destaques dos produtos, que incluem quimonos, vestidos, shorts e camisetas. “Os processos criativos variam de acordo com cada coleção, inclusive com artistas e designers convidados. O principal ponto é ter uma visão sobre passado, presente e futuro. Nossa coleção de final de ano, 2023 para 2024, foi um desejo de trazer estampas que mostrassem um pouco das comunidades pesqueiras do nordeste e trouxesse a perspectiva da fartura que a vida à beira-mar traz.” Um dos pontos principais para o empreendedor é valorizar a mão de obra dentro do processo de fabricação de cada peça, com salários justos e qualidade de vida. “O mercado é competitivo e desvalorizado. Temos uma imensidão de sites e feiras que vendem peças a preços muito baixos, que não fazem remuneração justa das pessoas, o que dificulta a manutenção e a valorização da mão de obra que existe para fazer uma coleção. São muitas mãos e sabedorias diferentes envolvidas.”
Mayara Junges
Lançada em agosto de 2022, a marca homônima de Mayara Junges é um deleite para quem busca peças autorais feitas sob demanda. Nascida no interior do Paraná e radicada em Curitiba, a estilista se formou em design de moda e fez pós-graduação em modelagem e moulage no período da pandemia de Covid-19: “Foi durante esses anos desafiadores que eu renasci e encontrei algo que me completa de verdade”, conta. Antes de se lançar no mercado, ela teve experiências no varejo e como stylist, e nunca tinha imaginado ser estilista. O que mudou o curso das coisas foi o Top Flor – hoje carro-chefe da etiqueta e que foi, na verdade, o trabalho de conclusão de curso da pós. “Lancei no meu perfil pessoal do Instagram e foi sucesso absoluto. Ainda é uma das peças mais vendidas. Depois, a demanda para criar outros itens cresceu e acabei me apaixonando pela ideia de ter uma marca própria.” As novidades são lançadas a cada três, quatro meses a partir de um processo bem livre de experimentação. “As ideias vêm e corro para o manequim de moulage para criar. Tudo é feito sob demanda e finalizado à mão. Tenho mulheres incríveis que me ajudam no processo de confecção, mas até hoje pego em cada peça e finalizo os pedidos”, diz. Os volumes são a marca registrada, mas de forma minimalista: é um equilíbrio entre formas que resulta em peças-desejo com um quê de drama. “Acredito em modelagem, acabamento e design. Meu processo de produção também é um diferencial e quero poder mantê-lo. Não consigo imaginar fazer grandes quantidades e deixá-las paradas esperando para serem vendidas. Isso não é sustentável – em nenhum sentido. Quero que minhas clientes saibam que estamos fazendo aquela peça especialmente para ela.”
Normando
O estilista Marco Normando e o artista visual Emídio Contente se uniram em 2018 para pensar um projeto que unisse as expertises de ambos. Foram dois anos de pesquisa e arestas aparadas para, em 2020, lançarem a marca que celebra as raízes amazônicas de seus criadores. “A concepção das coleções é um trabalho conjunto, ambos trazem referências diversas de assuntos que nos interessam e começam os diálogos para entender que caminho seguir. A partir daí, o Marco faz os croquis para a coleção e vamos editando juntos até chegar em um pensamento conciso”, comenta Emídio. Uma constante em todas as peças e coleções lançadas até hoje é a união da tecnologia com a sustentabilidade. “Queremos garantir que temos um produto com design interessante e, ao mesmo tempo, com ótimo acabamento. Também queremos que o consumidor use as nossas roupas por muito tempo e tenha cuidado com a peça e com a compra – não desejamos o consumo desenfreado.” A matéria-prima, então, é pensada para atender a essas diretrizes e ser o menos nociva possível ao meio ambiente. Origem certificada, orgânica ou reciclada são algumas das exigências no ateliê. O algodão usado em camisas e malhas, por exemplo, é de reflorestamento garantido e sem agrotóxicos. “Atualmente, também estamos fazendo alfaiatarias e construções de moda com matéria prima feita de látex, desenvolvida em Rondônia por uma cooperativa de pequenos produtores, que realizam a extração de maneira sustentável e sem a necessidade do plantio de monocultura”, explica Emídio sobre um dos destaques da marca. Para eles, a sustentabilidade está longe de ser algo apenas restrito aos insumos e também envolve, necessariamente, economia e sociedade. “Não tem como pensar hoje em construir uma nova marca dentro do caos climático que estamos vivendo, por exemplo, sem pensar no planeta e em como podemos ter impactos positivos mais constantes a partir da Normando.”