Get to know
Seis jovens marcas que conectam moda e arte propõem não só uma relação de consumo, mas de conexão com valores que vão do processo artesanal à relação terapêutica e emocional com a roupa
Lane Marinho
Formada em design gráfico, com 10 anos de experiência no mercado de calçados em marcas como Melissa, Arezzo e Schutz, Lane Marinho lançou sua grife própria e homônima em 2013 pensando no caminho oposto ao das grandes marcas. Sua ideia era desacelerar, confeccionar seus sapatos à mão, da maneira mais autoral possível. Não à toa, as conchas, cordas e pedras que usa em suas criações remetem ao mar da Bahia, seu Estado natal. Lane foi buscar know how na confecção de sapatos em Paris, onde estudou no Atelier Maurice Arnoult. Assim, combinou o rigor necessário para se fazer um bom sapato com o que chama de improviso, vindo do seu processo criativo Photo courtesy of the brand que não tem muitas regras e das formas orgânicas e das imperfeições da natureza, sua maior inspiração e conexão. A cartela de cores alegre e sofisticada é outro ponto que chama a atenção no trabalho de Lane. Matisse e Richard Diebenkorn são artistas que estão entre suas referências. Detalhista, a designer faz sapatos sob encomenda e confecciona cada um pessoalmente, num processo que leva cerca de três semanas. Também faz questão de fotografar, ela mesma, suas criações em composições que divulga em seu Instagram, e que já chamaram a atenção não só do mercado brasileiro como de diversas publicações internacionais importantes.
Framed
A Framed nasceu em 2017 como a marca de roupas do e-commerce de high fashion Gallerist, mas logo ganhou vida própria e passou a ser vendida em outras multimarcas com curadoria apurada, como a Pinga, em São Paulo, e o site Farfetch. Donas do Gallerist, as irmãs Amanda, Mariana, Carolina e Fernanda Cassou são as diretoras criativas da grife que se inspira em arte desde a primeira coleção, com 35 modelos que faziam referência ao trabalho do artista alemão Matthias Bitzer, com sua mistura de tonalidades e formas geométricas. Outros nomes como o do argentino Julio Le Parc, um dos pioneiros da arte cinética e da op art, também foram tema das coleções, sempre identificadas com um número dentro de uma série (como as séries de gravuras). O próprio nome da grife - “enquadrado”, em português - remete às molduras das pinturas e também lembra da função da roupa como moldura para o corpo. Amarrações, recortes vazados e babados que criam desenhos suaves e grá cos nas roupas fazem parte do DNA de estilo da Framed, que se propõe vestir mulheres de 20 a 60 anos, conectadas com o universo conceitual da moda. Recentemente, a marca lançou seu e-commerce próprio num almoço na SIM Galeria, em que a consultora de arte Camila Yunes fez um paralelo entre a exposição em cartaz Papel Carbono, do brasileiro Nelson Leirner, e a nova coleção da Framed, intitulada Rainbow.
Aluf
Usar a roupa como ferramenta de comunicação, de questionamento e de autoterapia (ou autoconhecimento). Essa é a ideia da Aluf, cujo trabalho é um exercício constante de conexão entre moda, arte e psicologia. A marca foi lançada há um ano por Ana Luisa Fernandes, de 23 anos, paraense radicada em São Paulo e formada pela FAAP, com a coleção Tela – O Processo Criativo como Forma de Autoterapia, inspirada na obra da psiquiatra Nise da Silveira. Desde então, a estilista tem conquistado espaço entre as grifes que trazem esse novo conceito que une design apurado com sustentabilidade e um olhar que vai além da moda como mera decoração do corpo. Ana Luisa considera suas peças “objetos de vestir”, com belos brincos de cerâmica e roupas com desenhos orgânicos e formas amplas - ora mais estruturadas, ora mais fluidas – feitas de materiais biodegradáveis, naturais ou reciclados, como algodões mesclados com pet reciclada, algodão com seda feita manualmente no sul do Brasil e tingimento com pigmentos naturais. As peças são 100% feitas no país e vendidas no e-commerce próprio da marca, no e-commerce Gallerist e na loja Pinga (SP). A marca já mostrou sua coleção no showroom Bureau Seutail, em Londres, e em Qingdao, na China, e recentemente estreou no calendário do São Paulo Fashion Week dentro do projeto Estufa, de novos talentos.
Struktura
Antes de abrir sua marca de acessórios em 2016, Stephanie Bekes se formou em design de produto na FAAP e trabalhou em galerias de arte de São Paulo e Londres. Foi essa vivência no mundo das artes e a inspiração no art déco, no artesanato tradicional, na Cartier e na Wiener Werkstätte (empresa austríaca que buscou elevar o design de objetos do dia a dia ao status de arte) que a levaram a abrir sua marca. Seu foco são brincos, anéis, pulseiras e principalmente cintos produzidos com matéria prima natural, como couro decorado com cristal bruto, prata, pérola barroca e por vezes acrílico, vendidos em e-commerces de moda como o Shop2gether. As pedras são escolhidas a dedo por Stephanie e o couro utilizado é original do Afeganistão, tudo manuseado por artesãos, ourives e fornecedores locais. A ideia é desenvolver o artesanal em toda sua linha, do produto à embalagem, no melhor estilo handmade. Todo este cuidado resulta em acessórios únicos, rústicos, despretensiosos, atemporais e de vida longa, como um objeto herdado da família. Um contraste so sticado entre o delicado e o bruto, que são quase jóias.
Maria tangerina
Com apenas cinco anos de vida, a Maria Tangerina nasceu em 2013 de um projeto pessoal de sua criadora, a estilista Priscila Cortez. No início, a produção cava toda por conta de Priscila, que produzia apenas peças por encomenda. Foi quando conheceu o Design Possível, ONG que a apresentou ao Cardume de Mães e à Economia Solidária, redes de colaboradoras que geram renda através da produção de acessórios artesanais. Tudo é feito à mão com material sustentável: bolsas, mochilas e pochetes ganham vida por meio da camurça sintética, do algodão cru, do algodão reciclado e do bye plastic, matéria-prima feita com refugo de plástico urbano e industrial. Em 2017, a Maria Tangerina firmou uma colaboração com a Jouer Couture e juntas as marcas desfilaram na Brasil Eco Fashion Week, a primeira semana de moda sustentável do País. A parceria deu tão certo que neste ano elas se juntaram novamente para produzir pochetes impermeáveis e recicláveis que estão à venda em sua loja online. Hoje, mais que uma marca online de bolsas e acessórios, a Maria Tangerina é também uma plataforma de consumo consciente. Adepta do do movimento slow, que busca produzir de maneira justa e responsável, a label não utiliza matéria prima de origem animal, preza por trabalhar com a indústria brasileira e fomentar a economia local e acredita no poder do pequeno negócio como agente de transformação. A ideia é mostrar ao consumidor que por trás de marcas, produtos e fornecedores, existem pessoas que precisam ser respeitadas e valorizadas acima de tudo.
Hana Khalil
Hana Khalil se formou em direito, mas foi na moda que a estilista encontrou o espaço ideal para expressar sua paixão pelas artes visuais. Desde muito nova ela já desenhava biquínis de crochê, que eram confeccionados sob medida pela avó. Foi essa inclinação para a moda que a levou a estudar em Londres, mais precisamente na Central St. Martins, uma das mais famosas e prestigiadas escolas de arte e design do mundo. Hoje, à frente da marca mineira que leva seu nome, ela faz arte pura e se inspira claramente nos movimentos de vanguarda dos anos 70, em formas, cores, fotografias, esculturas e na brasilidade para criar peças de edição limitada que são a assinatura de sua marca. A coleção de biquínis, maiôs, panneaux, calças, saias e vestidos é desenvolvida com tecidos nobres e naturais – como linho, seda, bordados artesanais – e outros mais tecnológicos. A modelagem orgânica acompanha com fluidez o movimento do corpo feminino. O clima resort traz peças atemporais, que de tão versáteis, brilham tanto na praia quanto em ambientes mais sofisticados ou despojados, como um jantar ou uma exposição.